"...Vinde, espíritos sinistros que servis aos desígnios assassinos! Dessexuai-me, enchei-me, da cabeça aos pés, da mais horrível crueldade!... ( Lady Macbeth – Shakespeare).
Este escrito surgiu como produto da leitura do capítulo XIX do Seminário A Transferência de Lacan feita no Seminário de Leon Capeller que acontece às quintas-feiras na SPID, e do que foi possível apreender do que ali foi lido e transmitido.
Entre a transmissão e a apreensão existe um abismo, próprio da linguagem, que se recobre com uma fantasia que por ora se harmoniza como verdade; a verdade da interpretação.
Essa verdade só dura um instante, pois no instante seguinte volta a se desarmonizar, ou deveria voltar, mas o que comumente acontece é a sua transformação num saber que chamamos saber da fantasia e que tem como função aplacar a angústia.
Portanto esse saber é também um saber do ego, religioso, da organização narcísica. Mas é também um saber do Outro, da busca de pertencimento neste Outro através do significante.
Nessa busca há, no mesmo lance, uma constituição e um sacrifício do narcisismo. Há um preço que se paga na forma de sintomas por não se enfrentar o saber traumático da não diferença sexual (núcleo vazio do inconsciente), no caso da neurose e seus excessos, assim como na providência singular que o psicótico toma frente a esse trauma.
A tentativa de apagamento da diferença sexual é o sintoma e não o desejo daqueles que se encontram inscritos na ordem significante que, ao vacilar, empurra os sujeitos para maiores manifestações sintomáticas.
No texto Kant com Sade o importante é o destaque dado por Lacan à referência à natureza que os dois fazem. O primeiro se refere à natureza humana moral como o Bem pelo qual o homem maduro deve escolher se sacrificar; já Sade, seguindo a tendência dos libertinos, prega a servidão do homem à natureza inumana, porém com o detalhe de gozo que isso lhe traz. Como escreveu Zîzêk no seu livro A Visão em Paralaxe: "de um lado o gozo da Lei, do outro a lei do gozo". Extremos que se encontram não por serem o mesmo, mas porque se referem ao mesmo. Nessas duas formulações resta como impensável o real da ambigüidade dessas duas naturezas, que é a fantasia do Um que elas encobrem. Kant e Sade usam a mesma lógica, que é a lógica do significante da complementariedade, em que a relação sexual existe. Não podemos ver aqui as duas faces do supereu que nem Sade ousou ultrapassar?
O supereu ligado ao Pai é uma formulação interpretativa de Freud frente aos impasses da sua clínica naquele momento histórico; como tal é uma "verdade" que agora se confirma como saber da fantasia, sendo, portanto, um saber da psicanálise, mas nem por isso e nem sempre um saber psicanalítico construído (hoje) a partir de um lugar vazio. Não se pode, na prática psicanalítica, aplicar o supereu sobre a história do sujeito como uma entidade vinda do exterior que o faz sofrer já sabida pelo analista; o que não implica que ele não sirva para nada, a história do sujeito se constrói com a ajuda do supereu e é ele também que ajuda a contar essa história enquanto dispositivo da estrutura fantasmática, enquanto ficção necessária, enquanto manifestação pulsional. O que interessa à psicanálise é a prática do supereu.
Nesse viés e considerando que "a pulsão é histórica" (dependente da atividade humana) na sua foralização; a partir de Lacan podemos hoje interpretar o supereu (função determinada) como decorrente da escrita (correção e controle dos enunciados) que instala um modo obsessivo de pensamento. Como tal, assemelha-se à severa e não ambígua Lei gramatical que suporta e mantém o gozo fantasmático.
Há, porém, outro saber próprio à psicanálise, que não provem de nenhuma Verdade, pelo contrário, suspende organizações de saberes; é um saber sem ética, desinteressado, sem culpa e sem gozo, acéfalo como a pulsão.
"Ciência é o real porque sabe sem qualquer ligação a qualquer verdade". Nessa frase de Lacan podemos entender a ciência enquanto operação de desconstrução/construção desinteressada, um saber que insiste por trás das aparências. A "verdade" que está ligada ao discurso da ciência é a pulsão que, assim como o fantasma, não pode subjetivar-se. É nesse aspecto que a psicanálise se aproxima da ciência como sua base, tendo por objeto a própria operação científica como construção da realidade, e que só pode ser alcançável numa operação lógica, matemática, dessubjetivada. A única saída para a alienação no grande Outro, ao qual estamos sujeitos, é a percepção dessa alienação. Só há a impossibilidade da desalienação; o que de modo algum é uma posição passiva como bem indicam os sintomas, que trazem no bojo o saber da não diferença sexual: pulsão de morte para além do prazer e do dever. Os sintomas são feitos para preservar os Nomes do Pai, sendo seu último termo a fantasia, pois é ela que reveste o vazio ou, dito de outro modo, é ela o equivalente da pulsão.
O desejo do analista é o desejo de saber sobre o desejo; sobre o lugar no significante faltoso. O analista é aquele que vê o objeto a, como resto da operação de subjetivação, como o que permite o movimento, como no jogo do resta um. É sobre esse desejo que o analista não pode ceder como nos ensina Lacan. É o desejo de extrair a subjetividade ou atravessar o fantasma, como se diz; possibilitar a mínima liberdade, que está no vislumbre da operação de subjetivação e no poder amar aquilo que se terá que desejar necessariamente.
Disso conclui-se que não há renúncia pulsional. O que se pode renunciar ou, talvez contornar, é ao modo particular de satisfação da pulsão.
O tique (gesto da negativa com a cabeça) e o esgar (deformação do rosto) de Signe de Coûfontaine na tragédia de Paul Claudel seriam sinais do objeto a como pura negatividade? Seria esse NÃO o último Nome do Pai que ela, prisioneira da fantasia, não pôde renunciar?
"Até que ponto a imaginação humana pode chegar!" é a exclamação de Lacan nesse texto.
Marília Flores
BIBLIOGRAFIA:
____ J.Lacan, O Seminário, livro 8, A Transferência (1960-1961 ) ED. Zahar.
____ S.Zizek, A visão em paralaxe (2008 ) ED.Boitempo.
____ A.G.Cabas, O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan (2009) ED. Zahar.
segunda-feira, 30 de março de 2009
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