A psicanálise já tem história, a psicanálise já tem monumentos, a psicanálise já é um caleidoscópio com sua repetição e sua estética próprias em que cada fragmento exige seu direito a se afirmar e a falar sua parolagem incessante, falar no centro da visada e nunca na margem, falar para o outro e nunca sobre si. Temos então tradições, interpretações e narrativas, genealogias e sequências, que funcionam na direção da construção de hierarquias e classificações para a produção de ilusões que deixam em sua esteira idéias, vozes e recalques. A psicanálise já organiza proibições, portanto desejos; identidades, portanto bens; modos, portanto monumentos.
Tradição. A censura tzarista, o modo onírico de escritura apresentado por Freud, eis a causa da tradição. Proibida a idéia, nomeado de esguelha o desejo, intala-se uma substituição positiva, concreta, uma sólida metáfora que consolida os valores da positivação, pronta a cessar odeslizamento metonímico, a curiosidade, a interrogação. Apresentada (Boltraffio, Tri-Metil-Amina), circula no lugar do e em substituição ao desejo, acresce a sua nostalgia o poder da repetição via ritual, assim como fazia Dostoievsky, arruinando-se no jogo para mortificar-se frente a mulher e produzir seus textos literários (ciclo Repetição-Masoquismo-Criação que evita o gozo fálico). Ilusão de certeza histórica, a tradição esclaresce uma completude anciã e pré-histórica, uma perda valorizada na sua história evolutiva cuja experiência pertence agora ao Amo, discurso do sedutor da histérica, que está à morte para o obsessivo e mumificado para o discípulo, torturador convivial para o liberal esquizóide. Esta é a experiência que a tradição promete, garante, ser agora possível.
Tradição. O que possibilita a doutrina. Que Freud mostrou poder ser acéfala ao inaugurar a tradição de "não ceder quanto ao desejo" e prosseguir no deslizamento. Agora que a doutrina, como a praça, deve ser de todos, pode-se relatar a exceção (história sintomal, modernismo, presença da diferença) ocupando-se a margem como sinthomem que resgata o núcleo ahistórico. As doutrinas críam tradição como Dostoievsky seus rituais e os agentes eclesiásticos da Neurose Demonológica em todos os séculos estabelecem o cenário em que a sobrevivência física dos Christoph Haizmann dependem de suas produção dita alucinatória. Diremos então que a transmissão da psicanálise é a transmissão da ruptura social, o que é feito nos interstícios da tradição, positivo ilusório da cultura.
Tradição. Renúncia à transmissibilidade para manter a verdade (como se esta fosse capturável). Agora que eles sabem o que fazem, eles se iludem impedindo, barrando o gozo que eles supõem desrecalcado pós-Freud. Eles, agentes eclesiásticos e mestres doutrinários misturados, convocam individualidades para ocuparem o centro do campo do novo saber, o centro que Freud reservou para o não-saber da diferença sexual mas que, para fazer tradição, é repleto e recolonizado, por fora, com chaves e senhas de novos doutos saberes representados pelos corpos e mentes que ocultarão o horror do laço social. Desta centralização da transmissão, da hierarquização e da formalização que constituem o cenário perverso da repetição histórica, podem ser listados o saberes técnicos da vivência. Aqui a tradição fica ligada à nostalgia, a narrativas épicas de um passado terminado. Os agentes desta tradição produzem saberes "que não servem mais", a não ser para garantir o esquecimento da origem da tradição.
Tradição constitutiva que, no mesmo gesto pelo qual convoca as individualidades, neste mesmo gesto, como em caricatura especular, demonstra nestes personagens o monstro, a coisa, o corpo estranho no tecido social. O indivíduo que instala-se nesta centralização opaca é pesadamente histórico. Dependente de sua própria coerência centrípeta para totalizar seus saberes em verdades, exige saber de repetição a seus subordinados/satélites, aceitando as regras tecnocrático-universitárias da organização social. Reduzindo o campo do insconsciente a uma outra-cena outramente organizada, coloca sua narrativa como chave das duas cenas, bloqueando com seu corpo/vivência a carne do entre-as-duas-mortes. A morte ronda seus antepassados, conferindo-lhe a autoridade retirada ao narrador moderno.
Tradição inicia-se em Entstellung, desvio efeito do desejo que, em alguns estudos, aproximamos à "voz média" que Freud desenvolve em Instintos e suas vicissitudes e em Bate-se numa criança, violência barroca civilizatória que atesta a liberdade mínima da resistência não-contigencial do sujeito do inconsciente. Já tradição, adorna-se, ela e seus agentes, dos emblemas do saber e de seus controles, o horror deve mostrar-se índice estético. Se no princípio o ato que apresentará os efeitos da Entstellung denega o esquecimento, logo a seguir a tradição maestra impõe o esquecimento/recalque da fórmula libertária, substituída pelo saber técnico em posição recalcante.
Tradiçao como ilusão de completude prévia, criada por ato necessário que visa solidificar metáforas no lugar da experiência esvaziada pelo conhecer a morte do pai/narrador, vazio de valor sobre o qual um conjunto de saberes é edificado como monumento e totem do morto original, do herói do ato tradicional original e da vitória sobre os monstros que escaparam à metáfora do idêntico. Mas com isso a transmissão renuncia à transmissibilidade para garantir e manter a verdade; com a construção do monumento, a organização e catalogação dos saberes, a valorização estética da obra, só a norma normativa pode passar, o novo é repetição por novidadeiro normatizado, mesmo o novo do interstício, por preenchê-lo, repete o mesmo gesto do herói-ainda-não-monstro que inaugurou a tradição representada agora pelo novo. Porque é novo não é verdadeiro, porque é moderno não é obrigatoriamente interessante, porque desconhecido não implica em descoberta."Determinar a totalidade dos traços sob os quais o moderno se manifesta...seria fazer uma apresentação do inferno", diz Walter Benjamim comentando O Processo de Kafka em Le Livre des Passages, mostrando o caminho seguido pelas instituições burocráticas e iniciáticas que nos assolam com sua modernidade universitária.
Poderemos mais tarde desenvolver o princípio pelo qual diremos que uma tarefa do analista é escavar a história a contrapelo.
Tradição se transmite por seus monumentos, suas leis, suas organizações. Transmite-se significa repetir-se, perpetuar-se, moldar desejos que, estes, não podem mais ser decantados das pulsões pois estas são agora pura abominação sintomática. Ainda ao estudarmos Walter Benjamim ficamos alguns meses discutindo seu Sobre o conceito de História que, em sua Tese 7, diz que "nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura." De que barbárie nos afastamos ao transmitir a intransmissibilidade do ato analítico? Como retomá-la longe dos efeitos da tradição que a atualizam como barbárie sobre o outro? Em primeiro lugar diferenciando a transmissão da repetição sintomal da transmissão da ruptura social na recuperação da compulsão à repetição, ou seja, reinserindo a possibilidade da pulsão na primazia do desejo. Em segundo lugar debruçando-se sobre a estética dos efeitos de barbárie serializados por recorte de significados em vantagem sobre as proposições, ou seja, o enfoque da transferência que podemos resgatar em Freud através da leitura lacaniana quando relemos na escuta o que está além do princípio do prazer ainda não reduzido pela tradição ao bendito sim do esquecimento. Vamos aplicar estas idéias a um caso de violência em suas duas leituras modernas, o filme Cape Fear em sua versão, por assim dizer, modernista, quando dirigido por G. Lee Thompson no início da década de sessenta, e em sua versão dita pós-modernista quando exposto à tela por Martin Scorcese.
Cape Fear (1962) é um filme concebido para despertar angústia no espectador. Um criminoso, liberto após cumprir sentença, procura o advogado que o defendeu, ameaçando-o pelo mau desempenho profissional que o levou à condenação.
Durante cem minutos o personagem aterroriza a família do advogado com sua presença. Não há nenhuma cena de violência física explícita, nenhuma gota de sangue é derramada, nenhum pedaço de carne é oferecido ao espectador por retalhamento do corpo erotizado. Imagem e narrativa são limpas e escorreitas, o passado é só menção, e o futuro é o fim da narrativa, apenas o aqui e agora se apresentam, pacíficos e prenhes de violência incomum. Não há mudanças, tampouco: os personagens são caracteres, o advogado é correto, sua esposa modesta, a filha estudiosa e carinhosa, o criminoso seco e inteligente.
A violência aparece na repetição que, capturando o imaginário do espectador, estabelece uma transferência amorosa em direção à estabilidade do sintoma; aquilo que desestabiliza é desejo, é reconhecível, só a sua razão é insuportável. Quando o saber parecia ceder à impotência, quando a razão do senso comum e do lugar social parecia sucumbir ao irracional do estrangeiro que sabe mais do que o autóctone, quando o caracter do Bem e da ordem começava a aderir ao laço social proposto pelo outro do ódio, Portia salva Antônio das garras de Shylock e, com a desrazão apoiada no saber da diferença do sexual, dentro de um projeto de princípio do prazer que, admitindo a existência de falhas, corrige-as na promessa de um saber futuro que advirá e as eliminará, o advogado descobre recursos inesperados na própria família e salva a ocasião. Fim, começo do futuro sem angústias.
Este filme foi proibido em muitos países pelo "excesso de violência psicológica e mental, indução à descrença, sugestão de fantasias de caracter erótico", o último item baseado na cena de sedução fracassada da filha adolescente pelo criminoso, que aliás deixa claro que não a quer seduzir, apenas atemorizá-la com a possibilidade. Esta versão cinematográfica confirma a angústia como estruturante do sujeito do inconsciente por moldar o espaço da fantasia, a narrativa insistindo em não preencher mas sugerindo continuamente os indizíveis sofrimentos que Ele poderia, se quisesse, infligir a nosso ego.
Cape Fear (1991) é um filme concebido para instruir o espectador; o mesmo criminoso de vinte anos atrás, na mesma situação narrativa porém mais moldado fisicamente, durante cento e vinte minutos exibe um mercado de carne em fragmentos, caracterizada a carne conforme as ações que são nela exercidas pelo personagem. Desejos nos são ofertados, dispostos para escolha conveniente/convincente e expostos em forma ahistórica que se situa na margem do que, ideologia/doutrina, faz as vezes de sinthomem, fingindo a possibilidade já presente de um projeto do princípio do prazer sem falhas em que as ações não remontam mais aos vínculos desejo/pulsão. Tudo vale, desde que seja consciente.
O advogado, advertido duplamente, pelo criminoso e pela ideologia da violência, arma-se, convoca uma organização paralela, que falha apenas para que haja uma narrativa que tenha começo, meio e fim, e não duvida nunca. Já o criminoso não exige nenhuma interpretação do espectador, nenhum pensamento a seu respeito é solicitado. Semelhança e ideologia, constituição e ação, tal como na astrologia, pertencem aqui à ordem do relâmpago, em que a compreensão e a determinação do futuro são imediatas.
Esbanjando cenas de violência aplicada aos corpos através de ações de corte, golpe, esmagamento, penetração, imobilização e derivados, os personagens estão igualados em rigidez em metonímia, garantidores isolados das metáforas, como se a função metafórica do nome do pai pudesse ser dispensada e substituída por um minucioso saber anatômico, saber criado pelo inventário das ações que, recaindo sobre os corpos, os estabelecem no regime das coisa vivas e prazeirosas. Aqui o intérprete morreu, e em seu lugar instalou-se a burocracia do pai perverso que apresenta a agora única verdade, compreensiva e abrangente; não há lugares de subjetivação, a lei sendo impotente e possível quando a tradição já está feita e estabelecida, não há barbaridades ocultas porque não há barbaridades, só desejos, não há repetição porque só há o mesmo fragmentado na visada do desvio (Entstellung), e o recalcado é único, o pai-que-não-presta histórica e convenientemente assassinado.
A película afirma que o outro do mesmo é o serial killer, aqui multiplicado em atos como um duende maníaco, aquele que, completada a revolução elíptica pela qual se estabelece uma fronteira verdade/saber, apresenta-se como caricatura da legislação. Demonstração: em seqüência emblemática, o agente assintomático seduz uma advogada com quem inicia um jogo sexual polícia/bandido, ao qual ela entrega-se, deliciada, na posição do bandido capturado pelas forças da lei. Cruelmente surrada, desaparece da cidade em que vive e trabalha movida por um intenso sentimento de vergonha motivado por Ter confundido os fantasmas. Reconhecer os significados, sempre falicizados, é a tarefa que restou aos que aderem à burocracia que imprime uma serialização de significados, enriquecidos do domínio e da sugestão, e que produz linguagem do esquecimento, não do esquecido.
Estas duas narrativas, de conteúdo idêntico, apresentado em formas variadas, caracterizam a violenta operação do pensar/agir que, sobre o duro núcleo do real, separa a coisa do vazio e instaura alguma coisa à margem. Isto é, moldado o espaço da fantasia, a angústia é concentrada nas caracterizações que congelam os desejos possíveis, remetendo para a margem dos procedimentos o equivalente ao agente organizacional.
É com esta violência identificatória que a tradição, "ilusão de completude prévia", afirma os personagens em suas identidades, jogos e desejos. Estas afirmações são operações que confirmam a tradição como substituição ritualística da barbárie recalcada, barbárie que é atualizada em barbárie sobre o outro. Os censores, em sua ignorância auto-definida, acertaram; a violência da simples presença, aberta às fantasias da vítima/espectador, masoquista passivo em sua ação, é algo mais subversiva do que a cena fantasmática exposta em sua completude imagética. Mas erram eles e erramos nós se nos detivermos nesta valorização; é a liberdade que está sempre em questão, a liberdade mínima da resistência não-contigencial do sujeito do inconsciente de que falamos no número anterior.
Violência barroca civilizatória, "voz média" que acompanha os processos civilizatórios, ato transformado pelo pensar de uma transferência que mantenha a sugestão encapsulada, esta é uma violência que, emanada da tradição, pode reautorizá-la de um lugar em ruptura. Ela está ausente de nossos exemplos, como está ausente das transmissões oficiais e institucionais da psicanálise que já tem história e monumentos. Nelas, a presença do outro se dá por violência impositiva da história de instâncias judiciárias, estabelecendo a compreensão do esquema-em-relâmpago e o imaginário de um objeto do desejo organizado como saber do outro.
Nestas transmissões históricas, reconhecemos o retorno em recalque do monumento transferencial nas instituições articuladas em torno da voz (i)letrada do mestre/psicanalista, do monumento burocrático nas insti-tuições articuladas em torno de leis e regras do laço social entre membros hierarquizados, e do monumento de um Real preenchido nas instituições articuladas em torno da destituição narcísica, garantia da subversão. Os objetos das respectivas articulações institucionais contradizem os trabalhos em torno do problema do inconsciente, visto que estes objetos substituem, com as vantagens da violência protopática, o núcleo do não-saber da diferença sexual.
Da tradição e da violência podemos extrair, a cada ato de transmissão, noções do inconsciente que o situem fora de qualquer astrologia judiciária, destituído de qualquer qualidade, quantidade ou fenomenologia, que o situem em qualquer esfera do idealismo, que não seja nem uma negação nem o negativo de qualquer consciência, e que não imprima, no lugar do sujeito do inconsciente, a presença de afetos. São noções que suportam a violência da vivência caída, tal qual Hamlet, que, ao narrar seu amor por Ofélia caída na sepultura, exclui o pai morto para agir, lançando-o à narrativa como antecessor de uma história que se presentifica. Bárbaro é retomar a história com toda a violência necessária, do lugar em que o morto "parou" como a caído.
Numa montagem d‘A Colônia Penal, o diretor encenou um final interminável; depois da ação da máquina da lei sobre o corpo do condenado e sua conseqüente morte, o pano de boca permanece em aberto. A ilha foi abandonada, ficam apenas o morto, preso à máquina da lei, as rochas do cenário, e a máquina em seu obsessivo funcionamento, gravando e regravando a letra da lei no corpo agora inerme. Nesta desolação, aparecem e desaparecem híbridos de humano e animal, sem fala, com gesticulação apropriada à metade animal representada, mas com um que de humano em suas formas. Estes híbridos, algo pré-históricos algo mutantes, observam os espectadores, nunca interagem, saem de cena, voltam à cena. E o horrível ruído da máquina não cessa. O fracasso colossal da letra da lei, o suicídio do mestre ao ver o sucesso da sua obra interpretativa, são substituídos pelo "personagem pré-histórico", capaz de transmitir a violência das rupturas das marcas do objeto, igualadas ao sintoma, e a violência da ruptura da escrita da Lei, processo civilizatório de decantação do desejo.
Freud opõe, com clareza e definição, processo civilizatório e guerra; "tudo o que favorece o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra". Mas tal processo "não é meramente um repúdio intelectual e emocional; nós, pacifistas, temos uma intolerância constitucional à guerra"* (em itálico no original). É deste constitucional que falamos ao pensarmos nestes seres pré-históricos; eles só aparecem depois da derrocada da Lei, por um longo e penoso processo que favorece, não conclui, o crescimento da civilização. Eles são a imagem da barbárie sobre a qual edificaram-se os monumentos da cultura; só serão recuperados numa outra barbárie, não excludente, capaz de suportar o que se repete numa outra cena.
Hamlet e Kafka nos permitiram pensar o equívoco da destituição narcísica como irradiação de novas identidades, o que reenvia a questão ética da transmissibilidade à imagem de Walter Benjamim do leão que, narrativa de ilustração, deve, às vezes, erguer a pata e mostrar suas garras à Lei à qual ela serve de ilustração. Agarrar-se à transmissibilidade, levantando inadvertidamente a pata da narrativa no recalque em contraposição à doutrina que faz existir sua possibilidade, pode nos levar a agirmos, ao lado de Freud, quando ele fala dos processos civilizatórios, longe da guerra promovida pelas instituições e escolas burocráticas e iniciáticas que agarram-se à tradição e à violência identificatória, insistentes em repetir e preservar a história nostálgica e a repetição historicista, indiferentes à necessária escuta da criação metafórica no outro. Vamos adiante desenvolver estas idéias discutindo o estado de perda de direitos que leva o mundo ocidental a precisar da doutrina dos Direitos do Homem, e, a partir dos "impossíveis" freudianos, estabelecer alguns objetivos na transmissão da psicanálise.
À banalidade do mal, subjetivação desprazeirosa do outro humilhado burocrática, ideológica e identitariamente, acrescente-se a banalidade dos direitos, princípios imortais de submissão à lei que está aí, a banalidade do privilégio, memória estabelecida pela força, a banalidade da universalização da vitimização, carrascos absolvidos em seus sintomas, e a banalidade da cura, entronização prazeirosa do mesmo, confirmação da distribuição imagética dos corpos e dos poderes, realização do fantasma "vir a ser o que já se era". Vitória final da religião e do espírito da nobreza, domesticação da ciência como inimiga da liberdade e da psicanálise como desfazedora de singularidades. A história dos privilégios e dos poderes recebe as inovações da psicanálise e, resistindo, privilegia sua renovação. Numa segunda abordagem, podemos perceber que estas quatro banalizações têm mais em comum do que aparentam. Pois ao afirmar totalitariamente as implicações totalitárias do sujeito em se localizar do lado da busca de um Bem que mereça, por tradição, costume e direito, universalizar-se em contraposição a um prazer agora universal da silenciosa vida corporal desencarnada e desubjetivada, o pós-modernismo e o triunfalismo burguês condenam o Direito à banalização da repetição narcísica da "vítima em processo", penosamente esforçada em satisfazer seu ideal de acrescer, a seu poder legal, algum saber unívoco e dominante que, se psicanalítico, libere-o de suas singularidades obscenas.
Ao lado de Benjamim e Freud, de Marx e Lacan, de Gramsci e Badiou, afirmamos serem exatamente estas repetições narcísicas das singularidades obscenas as figuras reais das abstrações cívicas provocadoras de sintoma sempre singular que, em sua vergonha, testemunha nosso inconformismo a nossa vida tão simbólica quanto deslizante, impotente e situada, queira-se ou não, além da ética dos prazeres. Mas não é próprio da psicanálise (e)levar a impotência sintomática à impossibilidade (ideo)lógica? Constatamos repetidamente que, por via triunfante, as neo-matrix-velhas leituras de Freud insistem na imutabalidade e desejabilidade do "vir-a-ser-o-que-já-se-é", na sua formalização através de um ideal por sua vez formalizado, na naturalidade do recalque igual para todos, privilegiando a violência do direito sobre qualquer constituição pacifista e o prazer do pai sobre o avanço da razão civilizatória, privilegiando ainda e também o resto misterioso e a repetição in ritornello do recalque sobre a presença, a insistência e a mitologia cegante da recusa (Verleugnung).
Direito à educação, à saúde, ao governo, ideais maturados no século XVIII, avanços civilizatórios sintomais dos reais conflitos entre trabalho e privilégio, chegam ao Freud do século XX travestidos em suas leis, seus recalques, suas mitologias. Da igualdade e da isonomia para o domínio e a influência, do desejável para o impossível, é assim que Freud, o psicanalista, passa seu ensino, verificando os efeitos da barbárie na história e nos sintomas, levantando-a, apontando-a, apresentando-a, repetindo-a para, talvez, não ser por ela repetido. Novas barbáries irão, ele sabe, limar as resistências à psicanálise, retransformando liberdade em necessidade e coerção.
Sim, as resistências como tais permanecerão por efeito de atos analíticos que, cientes ou não, tornar-se-ão públicos como qualquer barbárie. A Introdução desta revista aposta no acaso necessário: desta aposta é que procuramos agora nos servir para, com a vergonha da mostra de nossa não coincidência subjetiva, apresentarmos os desvios de nosso trabalho sobre o que nos resta na subversão freudiana em sua luta contra a cegueira constante e notável da recusa. Tentarei, então, falar da transmissão intransmissível destas resistências, tão desmedidas neste terrível século XX e início do XXI, exigindo toda atenção para que persistam, na transmissão, estas resistências que, alem da contingência, dos sofrimentos e da morte, demonstrarem os direitos da isonomia da exceção, recuperando a compulsão à repetição da banalidade da repetição, a escuta na transferência do que restou fora da memória, e, nas inovações da psicanálise, salvando-a das leituras óbvias do passado filosófico tradicional e só violento, atenção que Das Man Freud preconiza ao demitir a naturalidade expulsando as origens.
O QUALQUER, DE TODAS AS MANEIRAS QUE SE APRESENTE, IMPORTA
No filme Paisagem na Neblina, dois irmãos encetam sua odisséia, sua viagem de crescimento, seu ritual de passagem, buscando o "Pai-que-está-na-alemania", lugar mítico cheio de leite, mel e emprego, lugar d’O Pai, lugar n’O Pai. Nesta viagem-narrativa, todo episódio é um encontro, todo encontro é uma lição, toda lição é significativa-civilizatória-pedagógica. Cada episódio-encontro empurra um pouco mais os heróis para uma morte que antecederá a vida, cada trecho imprimindo uma dor que não retornará porque não se desprenderá, e que retira deles um pedaço de carne mais-de-prazer depauperando-os do Geist freudiano em que o desejo propicia o desfazimento de eventos aumentando a tendência à abstração. Num episódio solar, eles encontram um belo e jovem ator, que os acolhe e os introduz em seu grupo teatral mambembe, grupo inscrito na tradição do repetir tragédias gregas, gregas como sua língua, nacionalidade, naturalidade. Os atores ensaiam, repetem na repétition, no sol, areia, mar, luz, intelectualidade. Mas repetem ensimesmados, arrastados em suas identidades atomizadas, num automaton constrangedor. Estas repetições, que falam do efeito disruptivo do equívoco do igual (mesmo solo, mesma língua, mesmo texto, vidas esvaziadas nestas repetições), demonstram o vazio do trauma e não o deslocamento que a narrativa, como resposta à luta contra a realidade efetiva que causa os desvios que estabelecem tal narrativa como resposta, causa efeito no espectador. As crianças, atingidas pelo isolamento da repetição–repétition, partem. Mas a narrativa Paisagem na Neblina, em Entstelung, é causadora de efeito desejante no espectador exposto ao manifesto imagético, aqui onírico, e, simultaneamente, ao seu desvio que mostra a ex-sistência do desejo que sustenta esta narrativa. Estranho ao desejo, pode o espectador, atomizado no cinema como os atores no filme, reconhecer o desejo na narrativa, en seu desvio, como distorção do Eu na sua fala.
Os referenciais ideativos do que foi escrito acima podem ser expostos a discussão. Tanto a narrativa cinematográfica quanto este escrito respondem a uma transmissão (Angelopoulos demonstra imageticamente a força erótica que impulsiona os heróis para uma morte incerta em caminhada desejosa para além da repetição da beleza e do bem cultural), reproduzem desviantemente esta transmissão, e procuram causar efeitos de deslocamento, portanto de subjetivação, a partir de algumas inovações que nos permitem: a) construir a narrativa da seqüência citada; b) construir os efeitos da seqüência sobre os atores (nenhum efeito) e sobre as crianças–protagonistas (sofrimento, dor, impotência); c) construir a diferença das singularidades em questão pelo viés de suas repetições//estranhezas; d) manter a dúvida quanto às causas efetivas das ações; e) afastar as causas ideológico-explicativas dos efeitos.
A repetição pode também deslocar. Durante a odisséia, a menina repete um protos encantatório equivalente ao "No princípio", início do Velho Testamento, como fórmula para apaziguar as angústias do irmão menor; num momento de intenso desespero e desalento da irmã, o garoto reinventa-se como repetidor deste encantamento, o que desloca sua irmã do lugar da impotência relançando-a no que nós, espectadores, reconhecemos como impossibilidade nos desvãos pelos desvios das inovações eficazes. Portanto, para transmitirmos o que é da psicanálise em sua eficácia, na sua tradição e fora dela, em suas violências e com o registro delas, temos de pensar os pontos articuláveis de inovação e de diferenciação que seu pensamento, método e ação, possam já ter impresso como tradição e violência. Estes pontos, obrigatoriamente, teriam de se presentificar como efeitos da transmissão da psicanálise em repetição deslocada (a cada lance o objeto a, de rebut, torna-se pedra angular).
Diferenciando-se dentro das tendências da modernidade e da ciência, procuraremos na psicanálise o que, além de princípios que pertençam à mesma esfera mental de suas origens, expresse respostas às novas exigências fundadas na realidade efetiva que as exigiu. Evitemos portanto os princípios originários e repetitivos em sua sintomatologia e falemos do que, nas nossas narrativas, aponta para a causa do inconsciente:
Descentramento do sujeito com impossibilidade do objeto.
Angústia estruturante do sujeito e pulsão de morte renovadora e desconstrutiva.
Sintoma em suas possibilidades de sinthomem.
Heteronomia da ética.
Participação ativa do sujeito no ato experimental e vocação do sujeito ao ato libidinal, eliminando qualquer explicação de fenômenos, sempre narcisicamente recortados.
Como lidar na transmissão com estas e outras possíveis inovações sem estabelecê-las no lugar de princípios? Numa nota de pé de página, Freud mostra como Hesíodo tornou "inesquecíveis" traços que, na força de sua repugnância/atração, passam a menções que demandam uma narrativa, a qual, estabelecida como tradição, faz as vezes de memoriais memoráveis. É assim que, topograficamente, por destruição do outro, temos a Torah, o Mahabarata, os Evangelhos; e, num outro topos, história, mitologia, literatura. Freud, ao apontar para o escrito como exclusão/fundação, demonstra aí o valor da operação de transmissibilidade sobre a descoberta dos traços permanentes do outro. Por isso podemos dizer que as inovações acima descritas se adequarão a distorções que, como desejo que sustente a palavra articulada, designarão lugares sintomais ao sujeito barrado, mantida a exterioridade das pulsões. Disso pode dar testemunho o psicanalista que, autorizando-se por si mesmo, pode aí mostrar o retorno a Freud, em contraste com o herói fundador que, aluno bem aplicado, repete a lei em seus princípios, rompendo com a diferença.
Abrir o que já é oposto ao qualquer para seus desvios, tomar do retorno do recalcado o que o orientou como tal (Freud denomina isto que dá origem ao retorno de "cicatriz do recalque"), aceitar e interpretar com justiça as gralhas (rebut) aquém sintomais, tudo isto afasta o inconsciente, mas não sua noção, de um saber sobre a verdade, e aproxima-o de um efeito de palavra de verdade sobre o sujeito, portando da verdade material. Mas o que transmitir na intransmissibilidade para obter estes efeitos?
E PUR SI MUOVE
A colonização pela maestria universitária do campo do inconsciente reintroduziu o conhecimento como noção forte no primado do qualquer desconhecido. Novamente recusada, a operação da Verleugnung foi, pela violência da tradição do mesmo, afirmada e desmentida, reconhecida e desconhecida, domesticada técnica e cinicamente. A descoberta freudiana, porém, transmitida no que restou de discurso psicanalítico, demonstrou que se expressa além da decifração do recalcado, a taxonomia e a hermenêutica encarregando-se agora de fazer valer os direitos do sintoma pela repetição do mesmo saber obtuso. Portando o saber da psicanálise, o psicanalista não mais o transmite, incapaz de reconhecer os efeitos de seu ato por incapaz de prosseguir na cadeia metonímica e produzir os desvios desejantes sobrepostos aos significantes. Nas analogias e na interpretação substantiva falta um fator da magnitude do que está sendo analisado, diz Freud, mas, oferecido ao ensino, o discurso psicanalítico conduz o psicanalista à posição de psicanalisante, diz Lacan.
Transmitir a intransmissibilidade é assim oferecer a magnitude necessária para que o desconhecimento apareça no lugar (em vez) do sintoma (idealização do "grande homem" em Freud, mais-de-gozar em Lacan), expondo o que da castração, como efeito, participa da formulação do saber. No ato psicanalítico o analisante, por deslocamento subjetivo, faz-se analista, num lugar não-sintomal diferente do mesmo; oferecendo ensino, autorizado por si mesmo neste lugar, o analista passa a analisante ao procurar efeitos da ignorância-paixão sobre saberes construídos no desconhecimento-produto do ato, numa tentativa de desfazimento do desfazimento. Mais do que um saber castrado, é a própria castração (o feminino, o Pior do Pai) que é oferecida, à guisa de ensino, como sintoma não-contigencial a ser mantido em ato, carente de sentido e demonstrativo do fracasso social da psicanálise.
Porque a castração é onipresente às formulações, sua exposição como limite/instituição deveria obedecer a algumas orientações calcadas na prática psicanalítica. Não nos satisfaria, como a Michelangelo, o imaginário da presença da figura no bloco de pedra a ser desbastado; isto remete ao sentido, desde sempre forte, do sintoma. A figura/fantasma, em toda nobreza de seu saber, mostra o objetivo não-barrado do desejo, impedindo então a passagem do véu, da tela, do arcabouço a ser montado. Tampouco o desfazimento do desfazimento, apontando para um saber finalista e finalizado, aproxima-nos do desejo do analista. O apontamento na psicanálise em extensão, em que o analista desliza a analisante não demandante de interpretação, estará sempre marcado pelos movimentos de desierarquização, desclassificação, desilusão e desrecalque, movimentos que mantêm a abertura no que é encoberto/preenchido pela memória do mesmo, fabulação das origens sempre divinas (lembranças encobridoras). Visto que a memória só encobre a renovação do esquecimento, vamos, com Freud, diferenciar o esquecimento genuíno do recalque, e atribuir a hierarquização e a classificação aos fundamentos da resistência que elabora a memória sem deslocamento; a diferença, em Freud, suporta o direito à subjetividade além das identidades, evitando o ensino que, seguindo a lei, conforma-se em não ser doente participando da norma. Acrescentando-se a narrativa, fica aqui denunciada a ilusão de um início que, sempre começado, tem seu fim (História) permanentemente adiado, constituindo um intermédio ao qual se dá existência com enorme dificuldade. O "só existir" é um "ainda não existir para sempre", razão do desejo estabelecida pela lei, o que impõe a transmissão da repetição sintomal sem que o narrar pergunte pelo desejo.
Ligadas ao recalque, reconhecemos algumas formas de transmissão institucional da psicanálise que Roudinesco agrupou sob as formas transferencial e burocrática. Evitando, ou tentando evitar, a repetição sintomal da intransmissibilidade, passou-se, nestas formas, à transmissão do gozo e da plenitude impossível/impotente sem ruptura, terreno perfeito para o discurso da aparência (semblante). Nestes ensinos hierarquizados, a perversão autônoma preconiza a repetição por identificação superegóica à lei, os embates da boa consciência mantendo a escuta cristã amo/escravo que faz da escuta da voz de baixo o espaço da colonização acrítica e da hierarquização taxonômica do recalcado. O uso burocrático do pai perverso idealizado é aqui oferecido ao politeísmo narcísico da diferença sexual confirmada em sua recusa, o que leva a uma recusa que não pode mais ser exposta a não ser como escândalo.
Para manter o real e não desembaraçarmos a sociedade do sintoma per via del pore, precisamos criar um verdadeiro estado de exceção, mantendo o que de angústia estrutura e organiza o sujeito barrado, moldando assim o espaço da fantasia onde o objeto manifesta-se como traço dado pelo sintoma. Falamos de uma transmissão da psicanálise que não seja suporte de seu fantasma, vir a ser o que já se é, nem de um amar a si mesmo mais do que a seu sintoma, semblante do conhece-te a ti mesmo pervertido em shibolet. Mantidas a hierarquização, a classificação, a ilusão e o recalque na transmissão, presenciaremos a repetição do fracasso de Agamêmnon, repetição que, como todo retorno do recalcado, poderá, impedindo o verdadeiro estado de exceção, fazer um semblante de história que conclua em definitivo um processo histórico.
Agamêmnon, em Ifigênia em Aulis, de Eurípides, é o chefe nomeado/eleito de todas as forças gregas que vão atacar Tróia. Detidos pela calmaria, os chefes gregos são informados pelo sacerdote Calcas que a filha mais velha do chefe deverá ser sacrificada para Ártemis, ou não haverão ventos favoráveis para a expedição iniciar-se. O tema da repetição do sacrifício do pai-que-se-torna-herói-como-filho, explorado por Freud em Totem e Tabu e reformado em Moisés e Monoteismo, é imediatamente identificável, mas o respeito devido por Eurípides à narrativa mitológica, parte do caldo cultural hegemônico entre os cidadãos atenienses, é temperado, nesta sua última peça, por sua tendência humanista e francamente ateísta. Sabemos, através de Xenofontes, do dito de Sófocles no enterro de Eurípides, e que tão bem caracteriza a obra de ambos; "Representei os homens como eles deveriam ser; Eurípides representou-os como eles são." Aqui o drama já se imiscui com a tragédia e os personagens, ainda heróicos, inclinam-se às suas ilusões e certezas cruéis. Na peça, após enviar carta a sua casa convocando Ifigênia ao acampamento grego sob o falso pretexto de casá-la com o grande herói Aquiles, Agamêmnon, arrependido e envergonhado, escreve outra carta para casa contando a verdade e pedindo que Ifigênia não venha. Seu mensageiro é interceptado por Menelau, seu irmão e marido de Helena, o qual interpela Agamêmnon frente a tenda deste, na presença do coro. Um diálogo áspero, hipócrita e cínico desenrola-se. Menelau fala da vaidade e ambição de Agamêmnon, de suas manobras para tornar-se chefe da expedição, seguidos de atos covardes, egoístas e vergonhosos; Agamêmnon acusa Menelau por sua fraqueza e crueldade, vileza no trato dos familiares e baixeza quanto aos motivos que o levaram a recordar antigos juramentos das cidades gregas, obrigadas a responder sua convocação à guerra; dizendo do amor que devota à filha, leva Menelau a mudar de posição, o que provoca idêntica e oposta mudança de Agamêmnon, os equívocos narcísicos repetindo-se em sua hipocrisia até encontrarem em Ulisses o grande e comum inimigo que, sabedor da profecia, poderia jogar o exército contra os dois. Consternados em seu evidente alívio, decidem manter o sacrifício de Ifigênia frente um coro compungindo por, idealizador dos heróis e do heroísmo, não perceber nada do que ocorre como ilusório e trapaceiro na encenação da elite que, simultaneamente, quer manter a versão do pai e usá-la como saber completo, sem perdas. A repetição da exceção, o fracasso da civilização em seu trabalho de sublimação e desidealização, está agora consumado; todos sabemos, espectadores gregos advertidos pelo mito, num saber horrorizado e centrado, os acontecimentos que se seguirão, acontecimentos que confirmam a sintomática inevitabilidade da hierarquia e da ilusão no que passa da vigência da confusão demanda/desejo e da ambivalência narcisicamente centralizada, mantidos recalque e conceitualização na posição da verdade.
Dois mil anos depois, Michael Cacoyannis filma esta cena de uma maneira reveladora de nossa modernidade constituída em sujeitos advertidos sem ilusões. O diálogo se passa dentro da tenda, sem o testemunho de um coro, testemunho que agora nos envolve no semblante completo da argumentação, além de, acenando para a plena responsabilidade dos personagens em cena, assinalar a impossibilidade indicada por Freud como o apanágio da passagem à tragédia, em que o coro apela a outro para que ele, herói, morra uma e talvez última vez no lugar do pai como herói sem culpa, culpa que seria tomada agora pelo coro. Agamêmnon, herói, ainda não sabe o que dirá ao exército; ele e Menelau estão conscientes do horror em que suas vidas estão envolvidas, recortados numa dimensão mais humana, como se a norma da exceção agora lhes pesasse. Ouve-se o rumor de vozes, o exército parece ter-se reunido do lado de fora da tenda, algum rumor ou boato deve ter corrido entre a tropa, algo tem de ser dito. Agamêmnon, rosto crispado em primeiro plano, abre a janela; a câmera, após corte, está nas fímbrias do exército, muito longe da tenda que aparece minúscula na distância. Neste momento o exército, em uníssono, começa a, ritmadamente, gritar ‘A-ga-mêm-non, A-ga-mêm-non’; a câmera aproxima-se em zoom do rosto de Agamêmnon que, lentamente, de crispada abre-se num largo sorriso de orgulho e reconhecimento; nada mais precisa ser dito, nem mostrado, o fracasso de Agamêmnon está estabelecido, as errâncias do desejo encontraram guarida nas idealizações e ilusões do herói que eliminou a permanente tensão do dois que não se estabiliza nem mesmo no ternário e que tampouco retorna ao um da paranóia, tensão que Freud mantém em toda sua elaboração teórica sobre o pai, e que Lacan, quase objetivamente, interroga do desejo do analista, de sua articulação com o objeto-causa-de-desejo, e da elaboração contínua do Nome-do-Pai.
O fracasso de Agamêmnon é o fracasso de desenvolver atividades de resistência cultural, política, e social, erguendo os ombros em impotência quanto à exceção, não atravessando fantasma nem produzindo saber para, então deslocando-os, retomar em ato o que do gozo lhe é já emprestado em imagem. É tomar a transmissão de um lugar centrado no saber e não no ato, afirmando a impotência do sujeito descentrado para derrubar uma pilha de latas, muito menos a pilha epidérmica de preconceitos e leituras sintomáticas. Se a lei dos irmãos em constituição societária é a lei da não-prevalência e da distribuição, única lei que não é derivada do assassinato do pai, então a nossa pré-história não é a história de um passado distante e mais ou menos terminado, pré-edípico, cujos resquícios são simples ou complicadas patologias a serem escatologicamente eliminadas; nossa pré-história deve se constitui das repetidas histórias de sofrimento, escassez e combates recicladas, a história iniciando-se ao se obter a liberdade pela qual a compulsão à repetição encontra impossibilidades no lugar da impotência. O fracasso de Agamêmnon é o sucesso da psicanálise, o sucesso que a sociedade de Agamêmnon demanda da psicanálise e contra o qual Lacan nos adverte e nos exorta na "Terceira". A psicanálise liga-se à ciência e ao modernismo; sem isso só há o retorno de Agamêmnon, seu fracasso e destruições consequentes. À barbárie da manutenção do privilégio, barbárie transmitida em recusa na soma de ilusão, recalque, hierarquia e taxonomia, deve opor-se a participação ativa do sinthomem advertido em seu ato experimental, mantida sua vocação para o desejo; tal barbárie deverá ser demonstrada em seus avanços e recuos, numa demonstração que dispense monumentos. Nos seus deslocamentos em ato, em oposição ao real e fazendo passagem da versão do pai para a memória, o verdadeiro estado de exceção da intransmissibilidade renovada poderá ser transmitido ligando tradição à nostalgia e narrativa à repetição num resgate do núcleo a-histórico do qual a ciência moderna é margem.
O QUALQUER UM TEM UMA RELAÇÃO ORIGINAL COM O DESEJO
"Nem tudo sendo psicanálise, cabe aos psicanalistas em sua pluralidade significante a organização de espaços em que os recortes dos psicanalistas, um a um, ajam e sejam recebidos, agidos pelos agentes da transmissão da psicanálise e recolhidos, como nas tradições orais..."; "Há novas perguntas que a ética, interrogada pela questão do inconsciente, propõe ‘à organização da transmissão da psicanálise como atividade de laço social..."; "O difícil até agora tem sido contar os segredos e não o passado; ...teremos de (...) criar espaços para fazer com que o sintoma (...)cesse de sustentar as mesmas perdas do encontro da verdade com o saber, permitindo que o segredo do desejo seja dito. Contar o passado e mentir sobre o segredo são gesticulações da técnica institucional; mentir sobre o passado e contar todos os segredos são atos da prática da transmissão da psicanálise."; "Enquanto o bem-estar (bem-dizer, bem-repetir, bem-nascer) predominar como política do grupo sempre hierarquizador e excludente, haverá mal-estar na psicanálise..." São trechos do artigo "Contarei todos os meus segredos mas mentirei sobre o meu passado" que escrevi em 1996, aqui reproduzidos para introduzir o que pode ser parte do pensamento de grupos de operantes em psicanálise que pesquisam também sua transmissão. Longe da burocracia e da transferência mágica, em trabalho de exceção, agem na direção do que favoreça o singular que se inscreverá na margem. Donde subversão e talvez transmissão do vazio da barbárie que admita (mais) metáforas.
Conseguidas as operações de transmissão, a expectativa é de estabelecer o direito de impedir o privilégio, criando-se uma tradição na qual violência e sublime confundidos mantenham um vazio de valor em que solidifiquem-se metáforas. A instituição, sócia de Agamêmnon, é substituída pela doutrina do pensar, o que já era buscado no modernismo de Hamlet; o monumento continuará construído sobre barbárie re-lembrada e re-elaborada, pois a pior ilusão é ortodoxamente admitir sintoma sem fantasma e exigir o direito à submissão ao Grande Homem portador da doutrina, ortodoxa.
Enquanto a barbárie da manutenção do privilégio solidifica ilusão, recalque, hierarquia e taxonomia, a reinvenção (renomeação) do sujeito na ação sobre o evento recalcado retornando ao presente revê o sintoma como organização do passado identitário, propiciando o passar não-idêntico a si mesmo. Manter o real e o sintoma como possibilidades do sistema é favorecer a subversão e, assim, a transmissão da questão do sujeito do inconsciente, prática do moderno em formação permanente que afasta-se da idealização do analisante candidato a analista, burguês que espera acrescer de seu poder legal (institucional, social, político) um saber unívoco e dominante do qual suas singularidades obscenas (a figura real das abstrações cívicas) tenham sido limadas e reprotegidas até poderem produzir e divulgar os resultados de sua travessia pelo que restou da subversão freudiana. Este é o Agamêmnon da psicanálise.
O domínio do verdadeiro estado de exceção, do insucesso preconizado por Lacan à psicanálise, depende da fixação da posição de Agamêmnon como efeito da Verleugnung, para que a inovação lacaniana e a recuperação da castração e da desierarquização da função paterna freudiana possam continuar passando na permanente erotização dos segredos divulgados em detrimento do passado repetido.
Leon Capeller
segunda-feira, 13 de abril de 2009
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